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"Meu sonho é feito de código binário!"
"Os céus pegaram fogo na Era Nuclear...E era lindo!"
"A mãe natureza pariu os novos deuses de aço. Somos filhos da nova era robótica!"
"Os anjos enferrujam porque as chuvas são ácidas!"
"O meu coração é seu...É verdade, pode pegar: Eu compro outro no mercado negro de peças..."

"Ao morrer ele foi direto ao paraíso. Chegando, notou que os portões da entrada estavam corroidos pelo tempo e pela ferrugem. As nuvens eram escuras pela poluição e não havia mais um azul celeste, apenas o cinza chumbo. Os santos e as almas eram pálidos e gastos. Alguns santuários eram de plástico e conduítes secos. Fios provocavam relâmpagos entre as núvens e uma projeção holográfica imitava um arco-íris celestial. Voando a meia altura ou caidos entre as núvens digitalizadas, anjos enferrujados e carcomidos pelas eras oravam em cânticos eletrônicos, louvando o Senhor: Eram mensagens de amor, paz e espeçança...Todas mandadas por Deus que observava acima, onipotente de sua Estação-Satélite-Celestial."
AULA DE ROBÓTICA
O relógio holográfico marcou sete horas da manhã. Uma suave música eletrônica começou a tocar preenchendo todo o ambiente. No quarto o som também pode ser ouvido. A câmara de repouso abriu-se lentamente e um magro rapaz colocou os pés descalços no chão. Seus olhos piscavam lentamente e sua cara estava amarrotada. Uma tela holográfica surgiu flutuando a um metro e meio do chão como se fosse uma janela em pleno ar. Uma mulher apareceu na tela:
- Zhed? Você já acordou meu filho? Não vá perder mais uma vez a hora de ir para a escola. Você já perdeu a hora três vezes só esse mês. Eu tenho que te acordar todo dia e te lembrar? Depois dizem que eu sou uma mãe ausente...

- Tá bom, tá bom. Já to indo escaneando o esquema... Já iniciei...
- E pare de falar nessas gírias idiotas. Lembre-se: eu estarei no fim de semana. O resto está tudo em ordem, então não há necessidade de se preocupar. Mas, qualquer problema liga conecta aqui na empresa, tudo bem querido?
- Ok, ok mãe. Bye.
A projeção fechou-se e o rapaz levantou. Foi até o banheiro, depois foi à cozinha e ingeriu duas cápsulas de “café da manhã”, bebeu suco e foi até a sala de estar. Já era quase oito horas. E a aula iria começar. Sentou-se na poltrona principal da sala e iniciou o comando de voz:
- Oito horas da manhã, sala virtual do Colégio Iron Heart. Aula de robótica.
Quando deu o horário marcado, um sinal eletrônico e uma voz sintética avisaram:
- Oito horas da manhã. Iniciando sala de Holo-conferência virtual. Programação padrão. – Em apenas cinco segundos a sala de estar havia se transformado em uma sala de aula virtual. Vinte alunos holo-projetados de suas casas interagiam em holo-ambientes virtuais. A frente um robô de aparência humanóide iria iniciar a aula.
- Bom dia alunos de Iron Heart. Hoje é quarta-feira, 02 de maio do ano de 2229. Sede da Organização Escolar, Steel Coast City. Iniciemos a aula de hoje.

O professor era um robô Orion série 2230. O mais sofisticado do mercado. Seu designe era de traços leves e arrojados. Todo sua estrutura metálica era coberta de uma branca película de plástico metálico. Poucas partes como os braços e as pernas eram cromados, com ditava a nova moda. Um saudosismo aos modelos do século passado. Mas muito mais elegante. Seu rosto era sério e suave. Brancos como todo o resto do corpo. Esse modelo de lecionar era denominado Melquizedeque.
Melquizedeque apontou para uma tela de cristal que mais parecia uma janela e em letras azuis as seguintes palavras surgiram:
“AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA
1 – Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão,
permitir que um ser humano sofra algum mal.
2 – Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por
seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a
Primeira Lei.
3 – Um Robô deve proteger sua própria existência, desde que tal
proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.
MANUAL DE ROBOTICA 56ª Edição,2058 A.D.”*
Melquizedeque começou em voz suave e firme:
- Essas são as três leis da robótica. Alguém sabe o que significa? Para que servem?
Zhed bocejou. Outros alunos seguiram o exemplo, outros apenas olhavam vidrados... Enfim um rapaz respondeu:
- Meu pai disse que é como se fosse um freio para as ações dos robôs. Como uma coleira.
- Correto. Caro senhor Myers. Talvez eu não tivesse usado as sábias palavras de seu pai com tanta eloqüência, porém, se quisermos poupar tempo e irmos direto ao assunto... Podemos colocar dessa forma.
O robô tutor continuou:
No começo do século vinte e três houve o que chamaram de o nascimento da robótica suprema. Cientistas conseguiram elaborar organismos robóticos associados a sofisticados cérebros de inteligência artificial. Todas as nações debruçaram-se sobre tal projeto. Isso resultou num grande avanço no campo da robótica. Porém, com é inerente da sociedade humana, tais projetos foram utilizados pra todos os fins, desde aos mais nobres até os mais baixos e vis: como roubos de corporações e assassinatos de presidentes. É sabido que então houve a guerra Robótica que durou quase 25 nos. Terminou com um grande tratado de paz entre as maiores nações e a criação das três supremas leis da robótica que guiariam os passos robóticos até os dias atuais.

De repente a sala de holo-projeção transformou-se em outros ambientes e os alunos puderam ver as guerras ao vivo como se estivessem dentro delas, depois viram o tratado sendo assinado e por fim viram robô sendo usados para todos os fins em todas as partes do mundo.
- Bom, senhores. Por hoje basta. Espero revê-los em uma semana.
A holo-sala com Melquizedeque e todos os alunos desapareceu. Mais uma vez a sala de estar de Zhed surgiu sóbria e sombria como antes. O rapaz saiu da sala sentindo-se entediado. Foi até a janela da sala e olhou a cidade do alto do 230º andar de seu edifício. Olhou todos os automóveis planando no céu e robô por toda parte trabalhando no trânsito, em obras de construção, em plataformas, aéreas, por toda a cidade. Olhou e viu que não havia pessoas em nenhumas das vias de pedestres que cruzavam os prédios... Também...Com tanta violência nas ruas e os demais riscos, quem sairia de casa? Com todo o conforto de aulas virtuais, trabalhos virtuais e até pais virtuais... Quem sairia de casa?
Zhed olhou para um pequeno e desajeitado robô que soldava uma ponte aérea. Sentiu muita inveja de sua liberdade, de seu andar pelas ruas... De sua falta de humanidade.
Naquele momento, Zhed sentiu-se triste porque queria ser robô.
*(IN: Isaac Asimov – Eu, Robô)